Queria retroceder nosso tempo. Voltar àquela época em que dois segundos sem você já me matavam de saudade e só conseguia dormir depois de te ouvir dizendo “Boa Noite”. Saudade do que já fomos e poderíamos continuar sendo pelo resto dos meus dias.
Saudade das loucuras que você fazia, do quanto eu sorria de te ver sorrir. Saudade dos teus olhos no sol e do seu cheiro. E eu nunca imaginei sentir saudade de quem ainda está aqui, do meu lado.
Nós éramos tão fortes mas tanta coisa nos derrubou. Nós éramos tão vivos, tão completos juntos e, ainda assim, nos perdemos e vamos nos perdendo, cada dia mais.
Eu não quero te dizer adeus, não quero a vida sem você. Te quero de volta, apenas. De volta ao tempo em que as coisas não precisavam estar bem, simplesmente estavam por existir você e eu. Nós.
Não entendo essa mania que a gente tem de nunca conseguir jogar fora aquilo que não cabe mais no quarto. E acumula, por anos e anos, até não caber mais nada lá, até nós mesmos não conseguirmos entrar, de tanta tralha guardada.
Eu nunca vou entender por que não consigo te descartar, ou até entenda bem, mas não aceite que você é a parte de mim que mais machuca e mais faz falta, quando não está aqui.
E a gente vai vivendo assim: nesse ciclo de ir e voltar, nessa mania boba de tentar viver de outra forma. Eu, com esse hábito de tentar me apaixonar todos os dias por alguém melhor, sempre me encontro pensando em você, bem quando vou tentar recomeçar. E fica engraçado como os seus olhos sempre parecem os mais bonitos e vivos e qualquer rapaz se torna fugaz, assim como essa nossa história que está longe de falar de amor.
Eu queria você aqui, agora! Com os mesmos olhos que já me cansei de descrever. Queria você por inteiro, não essas partes soltas que você insiste em me dar. Eu queria acordar, um dia, com você ao meu lado e que esse dia se repetisse durante todos os próximos dias em que eu estivesse viva. Eu queria poder te ligar, a qualquer hora, e convidar pra tomar um café, chá, uma cerveja; qualquer coisa! Queria que nós dois estivéssemos bem no topo da sua lista de prioridades, mas que fosse a prioridade mais natural de todas, que nem prioridade seria considerada, por ser automaticamente parte de você.
Eu adoraria que nós dois, depois de todo esse tempo, pudéssemos encher o peito para dizer que somos nós. N-Ó-S! Com as consoantes, a vogal e o acento agudo, do jeito que tem que ser. Seríamos nós para o mundo todo, ou apenas para nós dois, porque só nós sabemos que vivemos e lutamos tanto até aqui, então o mundo não tem nada a nos acrescentar.
Eu queria que você quisesse tudo isso da mesma maneira que eu. Talvez você queira, queria até mais, mas nossos quereres, amor, nunca vão se entender…
E eu lembrei, por muito tempo, da cor dos seus olhos. Me lembrava, toda noite, do quão bom era te ouvir dizendo qualquer coisa, antes de dormir.
Então, finalmente, você voltou.
O tempo passou… já faz tempo demais. Parece que ele arrastou um pouco de nós, daquela sintonia louca, da cumplicidade, da nossa necessidade em fazer daquele romance a coisa mais linda do mundo. No entanto o tempo não arrastou a necessidade de acordar com os seus olhos, mas levou embora a certeza de que acordaria ao seu lado até envelhecer.
Eu tenho medo de a gente se perder, mas estamos nos perdendo um pouco mais, a cada dia, e nem dói tanto como na última vez que eu te perdi.
Eu estou indo embora, você também, mas insistimos em ainda tentar, desse jeito esquisito, solto demais. Eu te soltando, você me largando, deixando eu viver, mais do que devia. E o sentimento preso na gente. Ele não consegue deixar a gente viver, mas eu quero, quero você, quero nós, quero uma casa bonita e vários filhos com olhos iguais aos seus. E eu quero ir embora, também. Quero ser feliz, porque sei que vai ser difícil felicidade com você.
Te ver indo embora, um pouco mais a cada dia, me machuca tanto. Nós estamos indo embora um do outro, estamos dizendo adeus, cada dia mais… por amar demais.
Te ter confuso assim é estranho. Largar meus olhos na sua estante me deixa cega, pois você sempre esquece de deixar os seus na minha cabeceira, pra me fazerem enxergar quando acordo.
Mas te ver caindo me atinge, também. Te ver sofrendo, pelo que for, é como me machucar: dói demais em mim! Dói demais te querer sabendo que nós nunca seremos nós do jeito que deveríamos ser. Nunca seremos dois amantes andando de mãos dadas por qualquer lugar.
Seremos sempre essa mistura de fases, de cheiros e vontades. Seremos sempre esse romance sem meio, nem fim. Seremos esse amor às avessas, esse desejo preso nas celas da mente.
Nós nos cultivaremos na saudade, daqui em diante. Na lembrança vaga de uns beijos, uns cheiros, uns dias e uma sintonia confusa que nos faz completar um ao outro, mas nos impede de fazer esse sentimento completo se consumar.
Nós vamos se amar, todos os dias, na lembrança. Vamos viver juntos pra sempre, até o último suspiro, na saudade…
Era intenso. Intenso demais, até. Intensamente triste, intensamente bom, intensamente surpreendente, desde o dia em que se falaram pela primeira vez.
E nessas idas e vindas, ela notou que intenso nem sempre é o melhor. Os relacionamentos intensos não são esses cheios de apelidos carinhosos e uma felicidade sem fim. Os intensos são aqueles que vão, voltam, não conseguem ficar juntos, muito menos separados. São aqueles que mexeram com a gente muito tempo antes do amor, de fato, acontecer. Os amores intensos são os que mais doem e os que, dificilmente, conseguem durar a vida toda.
Ou melhor, são esses que costumam ultrapassar a eternidade, mas são alimentados, durante décadas e décadas, pela saudade. Amores intensos nos garantem lindas Bodas de Ouro… da saudade.
Difícil entender por que os amores mais fortes machucam mais, se quebram mais. Se é amor, não vence?
Amar, por mais que seja, parece o menos importante para se construir uma relação sólida, verdadeira e plena.
E se é intenso, a intensidade da dor também vai ser grande. A saudade eterna vai ser mais intensa, até, do que tanto amor!
Você voltou. Voltou com toda a força e os mesmos olhos de antes. Você voltou…
Você voltou e eu não sei se também me entrego de volta a você, se jogo tudo pro alto e corro pelo mundo segurando suas mãos, me segurando em você. Você voltou e o mundo também voltou pra mim, aquele colorido nos meus olhos e aquele meu sorriso sem tamanho voltaram, depois de tanto tempo distantes daqui.
Voltou, com você, a alegria de acordar, todos os dias, e saber que existe alguém me fazendo feliz.
Ainda assim, eu não sei se sua volta e tudo de bom que você traz, só de estar aqui, serão capazes de apagar a mágoa, a tristeza que eu senti quando se foi. Na verdade, isso tudo me assusta um pouco, me enche de medo, medo de você me abandonar outra vez, de ir embora sem avisar. Medo de sofrer de novo, de chorar, de apostar, novamente, tudo em nós e perder, como na última vez.
Engraçada essa minha mania de sempre tentar justificar seus erros, que evidentemente não têm justificativa.
Eu me cansei de nós, agora. Realmente me cansei dessa montanha russa que são seus pensamentos, dessa sua mania de me ganhar e depois insistir, de propósito, em me perder; ou simplesmente desistir porque já me ganhou de vez.
E se eu cansei, por que essa dor não se cansa também e morre? Por que esse amor não se mata, como você matou, como me matou, me anulou e me deixou assim, jogada, largada, sozinha…
E eu repito, toda noite, o tempo todo: Por favor, morra em mim!